domingo, 19 de outubro de 2008

As coisas que a gente quer de verdade

No dia 24 de setembro surpreendi uma lagarta verde no pano laranja que uso de cortina desde que quebrei a minha persiana. Estava lá, parada, enquanto o Pedro (grande amigo) e eu refletíamos sobre as nossas vidas. E quando eu fiz menção de tirá-la de lá, o grande Pedro me impediu, alegando que ela morreria, pois se fixara ali para completar a sua metamorfose. Concordei, porque tenho uma relação bastante especial com borboletas... são tão lindas e significam coisas importantes para mim.

Acompanhei, desde então, todo o processo de metamorfose do inseto. Observei cada mudança de cor da crisálida, mudança de ângulo de inclinação... Procurava notar todos os dias cada pequena mudança que se operava naquela tranformação, procurando adivinhar as cores da minha borboleta, qual seria o seu tamanho, o formato de suas asas...

Até que no dia 16 de outubro, entrei no meu quarto no exato instante em que o casulo se rompia e sujava com uma coisa vermelha a minha bolsa que estava logo abaixo dele! Momento único ver o belo inseto deixando a casca que lhe servira de morada até que estivesse preparado para voar. E ela era linda!!! Cinzenta com pintas amarelas e laranjas, grande e com asas em quase semi-círculos, daqueles que unidos sugerem a forma de um coração. E ela se foi, voou para fora de casa traçando círculos primeiro pelo meu quarto e depois pela sala, como que se despedindo.

Foi bom observar a lagarta em borboleta enquanto ela esteve por aqui. Me restou a casquinha, bonita, pendurada na minha janela aquela parte dela que ficou. E a visão bonita do vôo de Adeus, que um dia também farei.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

Cecília Meireles

domingo, 12 de outubro de 2008

Família?!

Alguns desgostos. Algumas saudades.
Uma falta de nãoseioquê, daquilo que eu nem o que é, pois nem sei se existiu. Falta do que eu penso ser tudo o que eu perdi.
Ausência que cala fundo. E me cala. Ou eu é que me calo...
Mas o que é que o meu silêncio representa? Faz alguma diferença?
Em toda a estrada traçada não há retorno. O tempo passa. Eu os perdi para sempre. Nós nos perdemos para sempre em desacertos mútuos e não há nada que eu possa fazer para recuperar os anos de convívio que não tivemos. Eles passaram.
Estou falando de base mesmo. Sustentação. Sinto que tenho as raízes superficiais e um medo dolorido de sucumbir aos ventos que batem aqui. Pode ser apenas impressão... A minha avó me ensinou muito. Fez tudo o que esteve ao seu alcance. Há uma base. Mas ainda acredito que são todos insubstituíveis. De modo, que a ausência dos meus pais se fez presença na minha vida.
E às vésperas do meu aniversário (depois de amanhã completo 22 anos) é difícil não pensar em como as coisas estavam no dia em que eu nasci e durante os quase doze anos em que partilhei do convívio com os meus pais e os meus irmãos menores. E toda a vontade de comemorar desaparece.
Não faço a menor idéia do quanto tudo seria diferente se tivesse sido diferente, nem de quem eu seria agora, afinal, um sábio já disse "eu sou eu e as minhas circunstâncias", e reconheço o quão inútil é fazer esse tipo de conjectura. As coisas aconteceram assim e elas são o que são. Simples. Escrevo tudo isso para talvez compreender melhor essa saudade que eu sinto de coisas que nem sei. Para tentar entender o porquê de me sentir uma estranha entre eles a vida toda.
Talvez eu nunca encontre respostas.
E tudo ficou bastante cinza por hora.
Sem comemorações para mim este ano.